Líderes do setor de satélites veem momento de transformação, parcerias e alta demanda

O último dia da 25ª quinta edição do Congresso Latinoamericano de Satélites, promovido pela Glasberg Comunicações e por TELETIME e encerrado nesta quinta, 1º, no Rio de Janeiro, reuniu lideranças da indústria de satélites na América Latina que apontaram estratégias convergentes em um momento desafiador atravessado pela indústria.
Parcerias entre concorrentes, investimento em constelações de baixa órbita (LEO), projetos dimensionado para aplicações soberanas, conexão direta em dispositivos (D2D) e atendimento do setor corporativo e defesa foram alguns dos destaques, apontados por SES, Eutelsat, StarOne/Claro empresas, Telesat, Viasat, Hispasat e Agility Beyond Space (ABS).
Para Ricardo La Guardia, vice-presidente de vendas da SES para as Américas, o setor está atravessando um momento de transformação intensa. "A demanda está crescendo absurdamente, vai continuar crescendo e o cliente final está mudando", apontou o executivo, que, ao mesmo tempo, aponta um ciclo desafiador de preços.
A SES aposta em segmentos como operadoras móveis, inclusão digital, soberania, energia e hyperscalers como oportunidades no cenário. Como trunfo, a operadora aponta a oferta de serviços multi-órbita que alia satélites geoestacionários (GEO), constelações LEO (via parcerias) e artefatos na órbita média (MEO) – esta última, o grande foco da empresa.
"Queremos que nossa próxima constelação com satélites produzidos pela SES em Luxemburgo, porque ninguém tem mais condições de esperar quatro ou cinco anos por satélites GEO. Nosso objetivo é fazer satélites em menos de 12 meses, e ter parcerias fortes para terminais competitivos", afirmou La Guardia, sobre o projeto da constelação meoSphere.
Eutelsat
No caso da Eutelsat, o diretor geral no Brasil, Rodrigo Campos, destacou a posição da empresa no mercado LEO – onde a constelação OneWeb (há três anos parte da companhia) é atualmente a única competidora operacional da Starlink. No último ano fiscal, 25% da receita do grupo foi oriunda da OneWeb; o segmento LEO cresceu 69% em um ano.
Campos nota que o mercado de baixa órbita não é simples: a iniciativa OneWeb já envolveu mais de US$ 7 bilhões em investimentos em pouco mais de uma década. A partir de novembro a empresa pretende lançar 669 novos satélites, que vão começar a substituir parte da frota atual. Um desafio é a disponibilidade de veículos lançadores, considerado gargalo atualmente para projetos do gênero.
Outra questão quente no mercado LEO é geopolítica, dado que a criação de polos competidores tem resultado em restrições a determinados serviços de satélites em alguns países. "Somos neutros ao máximo, seja na geopolítica ou comercialmente. Não vamos direto ao cliente: temos parceiros e estamos felizes com o modelo", afirmou Campos. Nesse aspecto, projetos para governos baseado em parâmetros que assegurem soberania dos países ganham relevância e se tornam uma parte importante das preocupações de diferenciação nas ofertas.
Já no front tecnológico, o executivo aponta a busca por novos modelos de terminais (inclusive com aposta em tecnologias específicas para setores ferroviário, militar, de aviação e óleo & gás), bem como o fortalecimento de redes terrestres de fibra para suporte aos serviços via satélite.
StarOne e Claro empresas
Já Lincoln Oliveira, diretor geral da StarOne/Claro empresas, destacou o papel único da empresa no ecossistema brasileiro de satélites: trata-se da única operadora que presta serviços de telecom (móveis e fixos) no País, mas que também tem uma frota de satélites.
"Essa diversidade permite uma capacidade muito interessante de integração. Nosso objetivo é atender qualquer necessidade do mercado em termos de TI, data center, cibesegurança e conectividade. Apesar da nossa frota ter cinco satélites GEO, não estamos limitados a ela, e a cada dia trazemos parcerias de órbita baixa e média para fazer parte da nossa infraestrutura e atender o cliente final", apontou Oliveira.
Telesat e a constelação Lightspeed
Uma das próximas alternativas de constelação LEO para parcerias é a Lightspeed, da canadense Telesat. Dolores Martos, vice-presidente regional de vendas para América Latina & Caribe, lembra que a constelação da empresa não mira consumidores finais, mas o mercado corporativo, de operadoras e defesa.
Neste sentido, um dos destaques é "o maior deal" da história da Telesat, firmado ao lado do governo do Canadá para apoio às forças armadas na região do Ártico. "São US$ 2 bilhões e um aumento da nossa constelação em 44%", apontou Dolores. Com início de serviços comerciais previstos para 2028, a Lightspeed deve somar 225 satélites.
Viasat e o D2D
Outro player com planos ambiciosos é a Viasat, relatou Tito Purwin, CFO da operadora para a América Latina. Uma das visões da empresa é o compartilhamento de infraestrutura, e para isso a Viasat lançou recentemente a Equatys, uma joint-venture com a Space42 voltada à comunicação via satélite diretamente para dispositivos (D2D).
"Será uma space towerco [torreira no espaço, em tradução livre], permitindo reduzir o capital no investimento na rede", apontou Purwin, sobre a oferta voltada às operadoras móveis. As sócias da Equatys anunciaram recentemente um aporte conjunto de US$ 1 bilhão no projeto, que está aberto para entrada de novos investidores.
Além do D2D, a Viasat segue atuando em segmentos estratégicos no Brasil, incluindo governos, escolas, comunicações críticas e inclusão digital. No caso do mercado marítimo, a empresa também está trazendo ao País uma solução multi-órbita que já é utilizada por mais de 2 mil embarcações no mundo, relata Purwin.
Hispasat
Em um momento onde a oferta de serviços ao lado de concorrentes se torna cada vez mais comum, o head de vendas da Hispasat, Sérgio Chaves, destacou parcerias com a StarOne, com a SES e a abertura de acordos de distribuição com a Eutelsat. "É a adaptabilidade. A realidade do mercado é que sozinho não se vai a lugar nenhum".
Uma abordagem colaborativa também pode beneficiar governos, segmento onde a Hispasat defende o modelo de "CondoSat", no qual várias nações compartilham um mesmo artefato. No setor público brasileiro, a empresa já é uma das fornecedoras para serviços via satélites em escolas, por exemplo. E no âmbito internacional, a chegada da Indra como controlador do grupo adiciona novas capacidades para a Hispasat no segmento de defesa.
Agility Beyond Space
Já na Agility Beyond Space (ABS), Felipe Saad Lukowiecki, managing director para as Américas, aponta que ainda são vistas boas oportunidades para vender a capacidade tradicional de satélites GEO, o que passa por segmentos como plataformas offshore (onde o GEO é usado de forma complementar) e mídia.
"Dá para gerar valor atuando de maneira mais focada junto aos clientes. Na região nós temos visto bastante sinergia para o broadcast, seja ele fixo ou móvel, e estamos desenvolvendo soluções bem estruturadas para isso, sem exigir grande investimento dos clientes", disse o executivo, que também destacou a busca por parcerias.
"Temos iniciativas embrionárias para participar de soluções que exijam multi-órbita e esperamos ser procurados para complementar outras soluções", apontou Saad.


